quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Um mau dia

John Doe estava feliz. Poucas pessoas tinham a sua sorte, a de pilotar uma máquina cujo objectivo era a morte, o seu único propósito e sentido era fazer morrer. Mas essa não era a sua preocupação, Doe apenas executava, como uma máquina, precisa e calculista. Nada importava a não ser a missão.

"Red 2, alvo a 2500"

Nada lhe podia tocar àquela distância, nada lhe podia atingir ou magoar. Ele era um anjo da morte, fora da graça dos humanos, inatingível. O seu co-piloto era mais uma arma, algo que apenas lhe ajudava a aumentar a sua precisão, uma forma de tornar a expiação de terceiros mais rápida e, se tudo corresse bem, menos dolorosa. Se bem que isso não lhe importava, a Doe apenas interessava matar, independentemente da dor que ele e a sua máquina, a Mary como ele lhe chamava carinhosamente, poderiam causar.

Se ele tinha sido ensinado a ser eficiente e a não ter compaixão, como é que poderiam eles esperar que ele a senti-se agora?

"Red 2, alvo livre, alvo livre"

Era agora o seu momento. Tudo aquilo para que treinava todos os dias, para que se tinha preparado, para que lhe tinham preparado, tudo se resumia a uma calibração, a um toque simples e a uma ordem, comando, a um toque de botão.

Tudo se resumia àquilo.

E sabem que mais?

Estava um belo dia.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

A morte

O que é morrer? O que é sentir os últimos minutos de vida a escapulirem-se por entre os nossos dedos tal como areia? A última viagem será sempre feita sozinha, nunca lá estará alguém a apoiar-nos, a esperar ou a dar conselhos. Será como nascer, completamente indefesos e sem fazer a mínima ideia do que se está a passar.

Será que estará à nossa espera um deus benevolente ou um deus vingativo? Imaginemos que não está lá nada. Imaginemos que morremos, o sangue para de fluir para o nosso cérebro e perdemos a consciência e......mais nada. O vazio, o negro. Nada lá. Tudo o que vivemos perde-se ali. O primeiro beijo?Puff. A primeira queca? Puff. O primeiro 20? Puff. A família? Os amigos? A experiência? Puff, Puff e Puff.

Isto é reconfortante e ao mesmo tempo assustador. Se perdemos tudo isto, não temos consciência do que se perdeu. Portanto não faz mal, é a indiferença levada ao máximo. Por outro lado, imaginemos que por qualquer motivo, nem que seja a teimosia, a nossa consciência perdura. Aguenta-se, fica lá, seja lá onde for. Sabemos que perdemos tudo aquilo, que outrora fomos algo mas agora somos nada.

Começamos em nada, o mais irónico seria acabar também em nada.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Um belo dia


Alir Ayman tinha saído de casa. A razão para tal não é importante, poderá ter saído para dar um passeio, poderá ter saído por estar farto de estar com a família, nada disto interessa. À medida que ele caminhava, sentindo o calor do dia e o ar seco, ouviu gritos e o som de vidro estilhaçar e pedra a quebrar. Sons familiares, nada de novo, os "bons" provavelmente a matar os "maus", se calhar eram os outros "bons" a rebentarem e a matar os outros "maus".

Desde que não fosse ele, sentia-se feliz, já habituado à relativa estabilidade de explosões e estilhaços. Continuou a caminhar, não se importava com o tempo, apenas em caminhar, quando estava um dia tão bonito o que importava era andar, viver e aproveitar, não é assim que se diz? À sua frente caminhava outro homem, estava armado, mas isso era também normal, as ruas não eram como antigamente, eram mais perigosas mas também mais seguras, de uma esquisita forma. Este tinha outras preocupações, tinha um local aonde chegar, não tendo como objectivo apenas caminhar.

Naquele momento a cerca de um quilómetro e meio e a trezentos metros do solo um homem está enclausurado dentro de uma máquina que custa 15 milhões de euros, capaz de destruir casas e tanques, facilmente matará um homem. É essa a sua função, ela respira e vive a morte. Ela é a morte, tudo o que a compõe serve para atingir esse objectivo.

Numa imagem a preto e branco vê-se um homem a entrar num edifício. O seu destino está traçado, não viverá durante muito mais tempo.A arma que ele transportava não o poderá proteger do que aí se aproxima, como poderia, se nem até meio de onde vem a morte consegue proteger o seu dono? Mas não faz mal, é até pouco provável que sinta alguma coisa e mesmo que sinta dor, alguém se importa mesmo? Num dia tão bonito não existem preocupações. As imagens que estão no monitor transmitem calma, os pilotos estão calmos. Ouvem os dois rotores num ritmo hipnótico, como que duas grandes asas enroladas que se esforçam por manter a máquina no ar. É uma ave de rapina, é a morte feita humana.

Alir caminhava ainda, a cerca de 200 metros um homem vira à esquerda e entra num edifício com apartamentos, Alir pondera a sorte de tal homem, ainda com um sítio onde estar. O calor começa a apertar, talvez ele também se devesse recolher. De nada interessava, mais vale continuar a andar, sentir o suor no corpo a refrescar. Está perto do sítio onde o outro homem entrou. É bonito.

Nesse momento é feito um click. Um corpo de cerca de um metro e meio com o seu corpo explosivo sai da ave de rapina, percorrendo um quilómetro e meio em dois segundos.

Alir dá mais três passos e vira a sua cabeça para a direita. Um som estranho começa a aumentar, parece que algo se aproxima. Tudo é preto. Um calor consome-o. Cimento atinge-o sem dó, ele sente o seu lado esquerdo a ceder. O seu coração bate um pouco mais. Os seus últimos pensamentos passam-lhe pela cabeça. Estava um belo dia. Estava quente. O suor passava-lhe na testa.

Estava um belo dia.