
Alir Ayman tinha saído de casa. A razão para tal não é importante, poderá ter saído para dar um passeio, poderá ter saído por estar farto de estar com a família, nada disto interessa. À medida que ele caminhava, sentindo o calor do dia e o ar seco, ouviu gritos e o som de vidro estilhaçar e pedra a quebrar. Sons familiares, nada de novo, os "bons" provavelmente a matar os "maus", se calhar eram os outros "bons" a rebentarem e a matar os outros "maus".
Desde que não fosse ele, sentia-se feliz, já habituado à relativa estabilidade de explosões e estilhaços. Continuou a caminhar, não se importava com o tempo, apenas em caminhar, quando estava um dia tão bonito o que importava era andar, viver e aproveitar, não é assim que se diz? À sua frente caminhava outro homem, estava armado, mas isso era também normal, as ruas não eram como antigamente, eram mais perigosas mas também mais seguras, de uma esquisita forma. Este tinha outras preocupações, tinha um local aonde chegar, não tendo como objectivo apenas caminhar.
Naquele momento a cerca de um quilómetro e meio e a trezentos metros do solo um homem está enclausurado dentro de uma máquina que custa 15 milhões de euros, capaz de destruir casas e tanques, facilmente matará um homem. É essa a sua função, ela respira e vive a morte. Ela é a morte, tudo o que a compõe serve para atingir esse objectivo.
Numa imagem a preto e branco vê-se um homem a entrar num edifício. O seu destino está traçado, não viverá durante muito mais tempo.A arma que ele transportava não o poderá proteger do que aí se aproxima, como poderia, se nem até meio de onde vem a morte consegue proteger o seu dono? Mas não faz mal, é até pouco provável que sinta alguma coisa e mesmo que sinta dor, alguém se importa mesmo? Num dia tão bonito não existem preocupações. As imagens que estão no monitor transmitem calma, os pilotos estão calmos. Ouvem os dois rotores num ritmo hipnótico, como que duas grandes asas enroladas que se esforçam por manter a máquina no ar. É uma ave de rapina, é a morte feita humana.
Alir caminhava ainda, a cerca de 200 metros um homem vira à esquerda e entra num edifício com apartamentos, Alir pondera a sorte de tal homem, ainda com um sítio onde estar. O calor começa a apertar, talvez ele também se devesse recolher. De nada interessava, mais vale continuar a andar, sentir o suor no corpo a refrescar. Está perto do sítio onde o outro homem entrou. É bonito.
Nesse momento é feito um click. Um corpo de cerca de um metro e meio com o seu corpo explosivo sai da ave de rapina, percorrendo um quilómetro e meio em dois segundos.
Alir dá mais três passos e vira a sua cabeça para a direita. Um som estranho começa a aumentar, parece que algo se aproxima. Tudo é preto. Um calor consome-o. Cimento atinge-o sem dó, ele sente o seu lado esquerdo a ceder. O seu coração bate um pouco mais. Os seus últimos pensamentos passam-lhe pela cabeça. Estava um belo dia. Estava quente. O suor passava-lhe na testa.
Estava um belo dia.
