domingo, 20 de março de 2011

Anjo Meu

Fantástico. Simplesmente fantástico. A nova novela da TVI começou à cerca de 15 minutos e já dá para odiar. Mal tinha tirado o sabor amargo da "Mar de Paixão", onde é normal as pessoas falarem com golfinhos, para me virem enfiar na boca o sotaque alentejano, falso claro, da Alexandre Lencastre e a sua companhia de maus actores. Aliás, para mim, o ponto alto da novela já passou e foi quando mostraram imagens do 25 de Abril com a música "Grândola Vila Morena", ou seja, o momento onde não haviam actores ou músicas do José Cid.

E como todas as novelas, já se prepara a TVI para mudar toda a novela para o Alentejo. Porque tal e qual como "Espírito Indomável" os custos de produção seriam demasiado caros. E o povo gosta do Alentejo, está na moda.

Mas a cena que eu mais gostei, foi sem dúvida, a do tiro. Nunca vi uma tão má actuação, tudo pareceu falso, até o momento onde eu me encontrava pareceu não existir por causa de tão má actuação. Sinceramente, acho que foi aberta uma nova dimensão depois do choro falso, da reacção falsa, o choro falso no carro que parecia provir de um miúdo autista, enfim, o autismo presente nesta novela é de tal forma grande que o meu QI deve ter baixado 75 pontos, em 75 claro.

À medida que eu for vendo a novela (que vai ter mais de 200 episódios) a minha capacidade intelectual vai também descer, até ao momento em que eu apenas escreverei "derp derp derp". Enfim, a ver socos mal dados e mal actuados já estou habituado, mas o facto de todos se referirem como "camarada" (os tropas) irrita-me, mas pensando bem, isso era de esperar.

Duas coisas: toda a gente a cantar depois de um homem ser atropelado e o facto de alguém conseguir se virar enquanto uma bala entra num carro.

Enfim, acabo aqui esta crónica e amanhã tentarei escrever a "review" do segundo episódio desta trampa. Se entretanto, não me suicidar, claro.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Um mau dia

John Doe estava feliz. Poucas pessoas tinham a sua sorte, a de pilotar uma máquina cujo objectivo era a morte, o seu único propósito e sentido era fazer morrer. Mas essa não era a sua preocupação, Doe apenas executava, como uma máquina, precisa e calculista. Nada importava a não ser a missão.

"Red 2, alvo a 2500"

Nada lhe podia tocar àquela distância, nada lhe podia atingir ou magoar. Ele era um anjo da morte, fora da graça dos humanos, inatingível. O seu co-piloto era mais uma arma, algo que apenas lhe ajudava a aumentar a sua precisão, uma forma de tornar a expiação de terceiros mais rápida e, se tudo corresse bem, menos dolorosa. Se bem que isso não lhe importava, a Doe apenas interessava matar, independentemente da dor que ele e a sua máquina, a Mary como ele lhe chamava carinhosamente, poderiam causar.

Se ele tinha sido ensinado a ser eficiente e a não ter compaixão, como é que poderiam eles esperar que ele a senti-se agora?

"Red 2, alvo livre, alvo livre"

Era agora o seu momento. Tudo aquilo para que treinava todos os dias, para que se tinha preparado, para que lhe tinham preparado, tudo se resumia a uma calibração, a um toque simples e a uma ordem, comando, a um toque de botão.

Tudo se resumia àquilo.

E sabem que mais?

Estava um belo dia.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

A morte

O que é morrer? O que é sentir os últimos minutos de vida a escapulirem-se por entre os nossos dedos tal como areia? A última viagem será sempre feita sozinha, nunca lá estará alguém a apoiar-nos, a esperar ou a dar conselhos. Será como nascer, completamente indefesos e sem fazer a mínima ideia do que se está a passar.

Será que estará à nossa espera um deus benevolente ou um deus vingativo? Imaginemos que não está lá nada. Imaginemos que morremos, o sangue para de fluir para o nosso cérebro e perdemos a consciência e......mais nada. O vazio, o negro. Nada lá. Tudo o que vivemos perde-se ali. O primeiro beijo?Puff. A primeira queca? Puff. O primeiro 20? Puff. A família? Os amigos? A experiência? Puff, Puff e Puff.

Isto é reconfortante e ao mesmo tempo assustador. Se perdemos tudo isto, não temos consciência do que se perdeu. Portanto não faz mal, é a indiferença levada ao máximo. Por outro lado, imaginemos que por qualquer motivo, nem que seja a teimosia, a nossa consciência perdura. Aguenta-se, fica lá, seja lá onde for. Sabemos que perdemos tudo aquilo, que outrora fomos algo mas agora somos nada.

Começamos em nada, o mais irónico seria acabar também em nada.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Um belo dia


Alir Ayman tinha saído de casa. A razão para tal não é importante, poderá ter saído para dar um passeio, poderá ter saído por estar farto de estar com a família, nada disto interessa. À medida que ele caminhava, sentindo o calor do dia e o ar seco, ouviu gritos e o som de vidro estilhaçar e pedra a quebrar. Sons familiares, nada de novo, os "bons" provavelmente a matar os "maus", se calhar eram os outros "bons" a rebentarem e a matar os outros "maus".

Desde que não fosse ele, sentia-se feliz, já habituado à relativa estabilidade de explosões e estilhaços. Continuou a caminhar, não se importava com o tempo, apenas em caminhar, quando estava um dia tão bonito o que importava era andar, viver e aproveitar, não é assim que se diz? À sua frente caminhava outro homem, estava armado, mas isso era também normal, as ruas não eram como antigamente, eram mais perigosas mas também mais seguras, de uma esquisita forma. Este tinha outras preocupações, tinha um local aonde chegar, não tendo como objectivo apenas caminhar.

Naquele momento a cerca de um quilómetro e meio e a trezentos metros do solo um homem está enclausurado dentro de uma máquina que custa 15 milhões de euros, capaz de destruir casas e tanques, facilmente matará um homem. É essa a sua função, ela respira e vive a morte. Ela é a morte, tudo o que a compõe serve para atingir esse objectivo.

Numa imagem a preto e branco vê-se um homem a entrar num edifício. O seu destino está traçado, não viverá durante muito mais tempo.A arma que ele transportava não o poderá proteger do que aí se aproxima, como poderia, se nem até meio de onde vem a morte consegue proteger o seu dono? Mas não faz mal, é até pouco provável que sinta alguma coisa e mesmo que sinta dor, alguém se importa mesmo? Num dia tão bonito não existem preocupações. As imagens que estão no monitor transmitem calma, os pilotos estão calmos. Ouvem os dois rotores num ritmo hipnótico, como que duas grandes asas enroladas que se esforçam por manter a máquina no ar. É uma ave de rapina, é a morte feita humana.

Alir caminhava ainda, a cerca de 200 metros um homem vira à esquerda e entra num edifício com apartamentos, Alir pondera a sorte de tal homem, ainda com um sítio onde estar. O calor começa a apertar, talvez ele também se devesse recolher. De nada interessava, mais vale continuar a andar, sentir o suor no corpo a refrescar. Está perto do sítio onde o outro homem entrou. É bonito.

Nesse momento é feito um click. Um corpo de cerca de um metro e meio com o seu corpo explosivo sai da ave de rapina, percorrendo um quilómetro e meio em dois segundos.

Alir dá mais três passos e vira a sua cabeça para a direita. Um som estranho começa a aumentar, parece que algo se aproxima. Tudo é preto. Um calor consome-o. Cimento atinge-o sem dó, ele sente o seu lado esquerdo a ceder. O seu coração bate um pouco mais. Os seus últimos pensamentos passam-lhe pela cabeça. Estava um belo dia. Estava quente. O suor passava-lhe na testa.

Estava um belo dia.